Posts de Gabriela Freitas
05 de mar de 2016

Vai sem medo, menina

Nem precisa me contar, que eu já sei. Aí dentro já doeu demais, dessas dores que esmagam cada espacinho do nosso corpo e parecem que não vão passar nunca. Você já sangrou um desses sangues invisíveis que saem da alma e escorrem pelos machucados que essas histórias incompletas nos deixam. Já sofreu de ver o coração esmagado por promessas que nunca foram cumpridas e já chorou por longas madrugadas até achar que secaria inteira. Nem precisa me contar que você já colecionou babacas e que se entregou mais de uma vez pro cara errado, eu sei de cor e salteado todas as vezes que você resolveu tentar mais uma vez e quebrou a cara, o corpo e o peito. Eu sei, menina, que a gente cansa de atirar pro lado errado e acaba desistindo de procurar pela mira certa. Eu sei que ardem os hematomas que a vida vai brotando em nós com cada final infeliz que o destino enfia no meio da gente. Mas eu também sei que você não nasceu pra abaixar a cabeça e engolir essa ideia de que você nasceu pra morrer sozinha.

Ninguém nasce predestinado a solidão, você sabe disso, e eu te admiro por levantar a cada tombo sem deixar a peteca cair, te admiro porque você é forte o suficiente pra saber que nenhuma fraqueza pode ser maior que a gente, te admiro porque você continua andando mesmo sabendo que vão ter pedras, buracos, armadilhas e que seu coração ainda vai ser quebrado muitas e muitas vezes. Ainda vai doer, sangrar, apertar e você ainda vai borrar o rímel com muito cara idiota. Mas você não vai desistir, porque você é do tipo que se quebra inteira, mas não deixa de acreditar. Cê pode até achar que o mundo vai acabar no dia seguinte, pode ligar bêbada no meio da madrugada e largar teu orgulho em uma dessas esquinas, mas vai continuar se reerguendo quando perceber que a sua cota estourou, vai partir pra outra sem se importar se a bagagem vai ficar mais pesada, porque quando não der mais pra andar, cê sabe que pode jogar fora. E é o que você faz, e é o que te faz ser assim, que eu mais admiro.

É essa certeza de que a vida continua, mesmo quando tudo conspira contra. É essa maturidade pra entender que as vezes a gente precisa apanhar um pouco, mas que isso não significa que vamos apanhar pra sempre. É essa sua coragem de meter a cara em mais um romance depois de tantos fracassos que já te fizeram encharcar o travesseiro. Então vai sem medo, menina, se joga desse penhasco emocional sem se preocupar se a queda vai doer. No final, eu sei e você também sabe que não é isso que importa. Então se atira nessa linha de risco, briga contra o mundo, mas não desista de você, não abra mão do que você acredita, não jogue fora o seu final feliz. Vai sem medo, que o amor é pra quem não se amedronta na primeira madrugada escura, pra quem não foge no primeiro susto e não se esconde com medo dos monstros embaixo da cama. O amor é pra quem fecha os olhos e pula do precipício sem parar pra pensar por quanto tempo ainda vai haver uma outra mão pra se segurar. Vai, mas vai sem medo, vai com a cara e a coragem que a vida te ensinou a ter. Vai, que uma hora ele vem também. A gente sabe.

Postado por Gabriela Freitas

Eu? Uma mistura de tudo que eu escrevo. Coração, alma e um pouco de corpo. Gabriela Freitas, sou paulistana direto da cidade da garoa, escritora, dona do blog Nova perspectiva e quando sobra tempo estudante de jornalismo. Insegura, dramática e um tanto áspera. Personalidade forte, meio agridoce, sabe?!
04 de fev de 2016

A minha droga certa

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Imagem: pixabay

Ele me encara de uma maneira investigativa, como se quisesse enxergar algo escondido dentro da minha alma. Ele tem um jeito curioso de buscar a resposta antes mesmo de pronunciar a questão, só pra provar pra si mesmo que pode ser autossuficiente. O problema é que, quando se trata da gente, ele quase nunca se responde sozinho. Suspira bem fundo, cansado dessa busca incessante por algo que sabe que não descobrirá, e me pergunta o que foi que eu vi nele que me fez querer ficar. Logo eu, a rainha da independência amorosa, dona de discursos sobre liberdade emocional, devota da ideia de deixarmos o coração livre e solteira de carteira assinada, resolvi me aposentar. Eu sorrio de relance vendo-o lutar para decifrar o indecifrável, e respondo transmitindo a certeza que lhe faltava: não faz pergunta difícil, moreno, não é o que eu vi em você, mas sim quem eu vi você. O amor tem dessas coisas.

Não adianta bater o pé, trancar a porta e fechar a janela. Quando é pra ser, é, e não importa o que você faça para impedir. Ele entra pela chaminé, escala o telhado, quebra as paredes e deita no meio da sala em cima do seu tapete peludo te convidando pra se aconchegar ali do lado, como se toda aquela quebra de estruturas não pudesse provocar infinitos estragos. E que provoque. Que abale. Que destrua. Amor tem que ser tempestade e tarde de verão ao mesmo tempo. Tarde de domingo não altera os batimentos cardíacos. Te olho enquanto você se perde no embalo do MPB que sai do rádio e me indago, de volta, como é que eu ia querer ir embora se sem você a vida ia ficar um tanto em preto e branco? Como é que eu ia sobreviver a abstinência que a falta do seu gosto me causaria? Eu fiquei, simplesmente, porque eu não teria forças pra ir embora de você.

Eu gosto dele um pouco mais do que eu pretendia gostar, gosto o suficiente pra querer passar as tardes encarando o teto do quarto e rindo de histórias sem graça enquanto nossos corpos se mesclam em um misto de desejo e amor. Eu gosto do jeito como ele ri, principalmente quando é pra mim. Gosto da maneira como ele me olha penetrando em cada pensamento que eu escondo do mundo, buscando por algo que só ele sabe que existe. Gosto da maneira como a gente se enlaça em um abraço apertado e faz do outro uma morada. Gosto do som que os nossos risos fazem quando contracenam no mesmo palco. Eu gosto da gente, de um jeito meio sem sentido, que faz tudo se acertar. Você me olha de volta e devolve o sorriso que eu estampo no rosto, e enquanto a gente se encontra um no outro, entendemos, também, que fugir seria impossível. Você já não é mais tão autossuficiente pra não precisar que eu esteja ao seu lado, e o meu amor só era independente porque eu ainda não tinha provado a droga certa.

Postado por Gabriela Freitas

Eu? Uma mistura de tudo que eu escrevo. Coração, alma e um pouco de corpo. Gabriela Freitas, sou paulistana direto da cidade da garoa, escritora, dona do blog Nova perspectiva e quando sobra tempo estudante de jornalismo. Insegura, dramática e um tanto áspera. Personalidade forte, meio agridoce, sabe?!
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