04 de fev de 2016

A minha droga certa

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Imagem: pixabay

Ele me encara de uma maneira investigativa, como se quisesse enxergar algo escondido dentro da minha alma. Ele tem um jeito curioso de buscar a resposta antes mesmo de pronunciar a questão, só pra provar pra si mesmo que pode ser autossuficiente. O problema é que, quando se trata da gente, ele quase nunca se responde sozinho. Suspira bem fundo, cansado dessa busca incessante por algo que sabe que não descobrirá, e me pergunta o que foi que eu vi nele que me fez querer ficar. Logo eu, a rainha da independência amorosa, dona de discursos sobre liberdade emocional, devota da ideia de deixarmos o coração livre e solteira de carteira assinada, resolvi me aposentar. Eu sorrio de relance vendo-o lutar para decifrar o indecifrável, e respondo transmitindo a certeza que lhe faltava: não faz pergunta difícil, moreno, não é o que eu vi em você, mas sim quem eu vi você. O amor tem dessas coisas.

Não adianta bater o pé, trancar a porta e fechar a janela. Quando é pra ser, é, e não importa o que você faça para impedir. Ele entra pela chaminé, escala o telhado, quebra as paredes e deita no meio da sala em cima do seu tapete peludo te convidando pra se aconchegar ali do lado, como se toda aquela quebra de estruturas não pudesse provocar infinitos estragos. E que provoque. Que abale. Que destrua. Amor tem que ser tempestade e tarde de verão ao mesmo tempo. Tarde de domingo não altera os batimentos cardíacos. Te olho enquanto você se perde no embalo do MPB que sai do rádio e me indago, de volta, como é que eu ia querer ir embora se sem você a vida ia ficar um tanto em preto e branco? Como é que eu ia sobreviver a abstinência que a falta do seu gosto me causaria? Eu fiquei, simplesmente, porque eu não teria forças pra ir embora de você.

Eu gosto dele um pouco mais do que eu pretendia gostar, gosto o suficiente pra querer passar as tardes encarando o teto do quarto e rindo de histórias sem graça enquanto nossos corpos se mesclam em um misto de desejo e amor. Eu gosto do jeito como ele ri, principalmente quando é pra mim. Gosto da maneira como ele me olha penetrando em cada pensamento que eu escondo do mundo, buscando por algo que só ele sabe que existe. Gosto da maneira como a gente se enlaça em um abraço apertado e faz do outro uma morada. Gosto do som que os nossos risos fazem quando contracenam no mesmo palco. Eu gosto da gente, de um jeito meio sem sentido, que faz tudo se acertar. Você me olha de volta e devolve o sorriso que eu estampo no rosto, e enquanto a gente se encontra um no outro, entendemos, também, que fugir seria impossível. Você já não é mais tão autossuficiente pra não precisar que eu esteja ao seu lado, e o meu amor só era independente porque eu ainda não tinha provado a droga certa.

Postado por Gabriela Freitas

Eu? Uma mistura de tudo que eu escrevo. Coração, alma e um pouco de corpo. Gabriela Freitas, sou paulistana direto da cidade da garoa, escritora, dona do blog Nova perspectiva e quando sobra tempo estudante de jornalismo. Insegura, dramática e um tanto áspera. Personalidade forte, meio agridoce, sabe?!