18 de nov de 2015

Nic e Bê

Estávamos, minhas amigas e eu, em frente a um grande quadro que mostrava os horários das sessões do cinema. Ainda não tínhamos decidido que filme íamos assistir, por isso estávamos ainda paradas ali. Depois de uns 15 minutos analisando cada opção, decidimos assistir a uma comédia romântica, que era a única que nos fez chegar a um consenso. Compramos os ingressos, pipoca, refrigerante, doces e fomos para a fila. Estávamos conversando empolgadas, quando percebi que alguém tinha parado ao meu lado. Olhei para ver quem era e minha cara de susto deve ter deixado óbvio que eu nunca imaginaria que era ele quem estava ali.

– Bê, oi! Nossa, você por aqui? – Lice falou, quebrando o silêncio que estava entre nós quatro.

– Ah, você que é o famoso Bernardo, então?

Quando terminou de dizer a frase, Sophia sentiu que tinha falado demais. E o nosso olhar de “Você ficou doida?” ajudou-a a ter essa certeza.

– Quer dizer que eu sou famoso, então? – Ele estufou o peito, orgulhoso. Como se aquilo fosse exatamente o que ele queria ouvir.

– Você veio assistir algum filme também? – Respondi rapidamente, tentando desviar do assunto.

– Aham.

– Mas, sozinho? E ainda mais uma comédia romântica?

– Ué, qual o problema? E agora não estou mais sozinho, encontrei vocês!

“É isso mesmo, produção? Ele está mesmo se convidando pra ficar com a gente?”. Minha vontade naquela hora era de sair logo dali, mas que mal teria em todos assistirmos um filme?

Logo estávamos todos dentro da sala. Os trailers começaram, ficamos conversando e comentando. Nesse momento eu já estava “conformada” com a presença do Bernardo. Afinal, apesar de tudo, ele era muito divertido. O filme começou e ficamos todos em silêncio, enfim. Silêncio que só foi quebrado quando ele se aproximou de mim e falou bem perto do meu ouvido, me fazendo gelar por dentro:

– Eu menti.

– Mentiu? – Foi tudo o que eu consegui dizer.

– Aham. Eu não vim no cinema. Eu vim ao shopping fazer umas compras. Então, passando em frente ao cinema, vi vocês comprando o ingresso. Então achei que era a oportunidade perfeita para falar tudo o que eu tenho para falar.

Silêncio.

– Olha para mim.

Ele virou meu rosto para sua direção e tirou uma mecha de cabelo que estava caída.

Eu permaneci estática. Não conseguia falar nada. Estava tão surpresa com a atitude e a sinceridade tão repentina dele. Quando ele viu que eu não estava em condições de falar nada e de, principalmente, recusar escutar o que ele tinha para falar, ele continuou.

– Não vou pedir pra você não falar nada até eu terminar o que eu tenho pra falar, porque já percebi que você está um pouco surpresa e não vai conseguir. Enfim, eu sei que você sabe que eu sempre fui interessado em você, eu mesmo não fiz a mínima questão de disfarçar isso. Bom, estou aqui agora contigo. Mas não vou pedir pra você namorar comigo, me dar um chance ou algo do tipo. Eu já percebi que isso não está nos seus planos. E eu respeito. Mas eu queria te pedir uma coisa. Fica comigo essa tarde? Eu preciso te sentir nos meus braços pelo menos uma vez. Depois que a gente sair daqui, tudo pode voltar ao normal. Se você quiser fingir que nada aconteceu, ok. – Ele puxou meu rosto pra mais perto do dele, tão perto que eu conseguia sentir sua respiração. – Só não me diz não agora…

Depois de tudo isso, como eu conseguiria dizer não? Levei uma das minhas mãos até a nuca dele e puxei seu rosto para o meu. Antes mesmo de eu começar a beijá-lo, ele mesmo o fez. Eu podia sentir a urgência naquele beijo. Até um pouquinho de desespero. Só então percebi o quanto ele queria que aquele momento se concretizasse. Mas isso não durou muito tempo. O beijo foi ficando mais calmo, mais doce e pudemos apreciar mais o momento. Quando nossas bocas desgrudaram, ele ainda tentou falar alguma coisa, mas coloquei delicadamente meu dedo sobre os lábios dele, seguido de um “não fala nada” sussurrado e um sorriso sincero para mostrar que estava tudo bem. Ele também sorriu, me deu um beijo demorado na bochecha e eu encostei minha cabeça no ombro dele, para continuar assistindo ao filme. No fim das contas, não assistimos praticamente mais nada do filme a partir dali. Escolhemos curtir aquele momento. Eu, porque achava que devia aquilo pra ele, depois de tudo o que ele me disse. Ele, porque não sabia quando aquilo ia acontecer de novo. Isso se acontecesse. E depois de tudo o que tinha acontecido com o Gustavo, precisava de alguém que me cuidasse, pelo menos por um momento. Afinal, não sou feita de ferro e no fundo dessa proteção que criei em volta de mim, ainda sou eu. No final do filme, as meninas sem a menor intenção de disfarçar, foram pra alguma loja para que Bê e eu pudéssemos conversar, e, na cabeça delas, nos entender. Mas aquilo continuava fora dos meus planos, e aquela tarde não me fez mudar de ideia.

– Obrigada. – Foi tudo o que ele disse quando parou de frente a mim. Talvez só para quebrar o silêncio.

– Não agradece. Falando assim, parece que te fiz um favor.

– E não foi? –  Ele virou meu rosto para que eu o fitasse.

– Não. Se eu fiquei com você aqui hoje, foi porque eu quis. Mas…

– Dessa vez eu que te peço pra não falar nada. Eu não disse que não estava te cobrando nada? Vamos ficar com essa imagem boa dessa tarde, com essa troca de carinho que a gente teve. Fica bem e até amanhã, tá?

Ele me deu um beijo na testa, e saiu andando. Não podia deixar ele ir sem fazer uma última pergunta:

– Hey! – Puxei ele pelo braço, fazendo ele olhar para trás – Você tá bem mesmo?

Ele voltou, e olhou no fundo dos meus olhos.

– Melhor impossível.

– Então, tá. Tchau.

Para a surpresa dele, e um pouco da minha também, já que agi quase que irracionalmente nessa hora, dei um selinho nele. Ele me olhou, deu meia volta e saiu pelo shopping. Fiquei olhando até ele desaparecer pela escada rolante. Não podia ver, mas podia jurar que ele estava sorrindo.

Postado por Daiany Gomes

21 anos, paulista e formada em marketing. Aos 9 escreveu uma peça de teatro sem nenhuma pretensão. De lá pra cá, nunca mais parou. Atriz de alma, escritora por paixão e ruiva de farmácia. Dona mais que orgulhosa do blog Bilhete da Garrafa. De vez em sempre, brinca com as palavras por aí.
17 de jul de 2015

Um texto sobre o amor moderno

Takmeomeo

Foto de Takmeomeo

Outro dia recebi um coração via Whatsapp de um carinha que eu estava saindo e fiquei pensando no quanto odeio a modernidade. Essa agilidade toda e a abreviação de sentimentos em carinhas amarelas que eu raramente sei o que significam. E a gente responde o que? Aquele emoticon com olhos esbugalhados em formato de coração imitando alguém apaixonado? É isso que ele quer dizer, não é? Que eu tõ apaixonada pra cacete? De quatro? Sonhando acordada com a boca aberta? Sei lá. Pode ser só um “ah meu deus que coisa fofa”. Vai que né, cada um interpreta como quer. Esse é o pior dos tempos modernos: não tem como ter certeza de nada.

E lá estava eu encarando o visor do celular sem fazer nem ideia do que responder. Depois de visualizar a mensagem e ser denunciado pelo sensor maldito do aplicativo não dá pra enrolar muito. Se você fizer jogo duro demais ele parte pra outra, é só selecionar um daqueles intermináveis contatos femininos na agenda do celular e mandar um sorrisinho amarelo insinuando qualquer coisa que ninguém nunca vai saber bem o que é. O romantismo perdeu seu toque misterioso do tempo dos meus avós, a ansiedade da espera foi passada pra trás e deu lugar pro imediatismo, agora tudo se resume facilmente em duas setas azuis anunciando que você foi ignorado com êxito. Na tentativa desesperada de ter um relacionamento um pouco mais normal decidi dizer apenas que eu também. Mas eu também o que? Sou um coração imenso que fica piscando na tela? Não, é claro que não! Eu também te amo. Foi isso que ele disse mascarado naquele emoji, não foi? Que me ama perdidamente? Alguém sabe? Tem algum manual que dê um significado exato? Ele não me respondeu por quatro horas seguidas, o que, de fato, me deixou desnorteada. Um pouco mais tarde me convidou para um cineminha no final de semana, topei, é claro, àquela altura eu não estava em posição de recusar nada, só de agradecer por ele não ter recorrido ao manicômio.

Levei alguns meses pra entender que, na verdade, ele não disse que me amava, aquele coração não significava nada além de um emoticon colocado no lugar do que não havia pra ser dito. Mas, como é que eu ia saber naquele momento o que aquilo significava? Afinal, até onde eu sei, coração significa amor, não é? Aquela válvula mágica que bombeia o sangue e te mantém vivo. Na minha cabeça foi isso que ele quis dizer: você me mantém com vida, te amo. E eu também amava. Mas era um amor escrito em letras garrafais com canetinhas coloridas em papel de carta enfeitado e não aquele exposto na tela de um smartphone. Era um daqueles amores que surgem sem que a gente queira que surjam e fazem a gente enxergar só o que quer, e eu queria achar que ele me amava, também, e que todas aquelas carinhas eram exatamente o que ele não sabia o que dizer.

A gente saiu mais umas três ou quatro vezes, cinema, barzinho e motel. Depois ele sumiu. Sem mais nem menos, sabe? Fiquei me perguntando o que é que eu tinha feito de errado, será que era a roupa? O cabelo? O perfume? Talvez a maquiagem, sei lá. Tinha que ser alguma coisa. Enchi a caixa postal dele com mensagens e continuei sendo retornada só com aquele silêncio ensurdecedor que é quase um soco no meio do estômago de quem tá caidinho por alguém. Depois de tantas tentativas eu desisti, enfiei o orgulho embaixo da cama e digitei um Whatsapp “pô, cara, você sumiu…” e ele respondeu em seguida com um bonequinho cabisbaixo. Ele, o amor da minha vida, o futuro pai dos meus filhos, o moço que tava me tirando o sono e rendendo alguns textos lotados de curtidas, me respondeu com um emoticon triste, como se aquela merda tivesse que fazer algum sentido na minha vida. Maldito! Nem pra pedir desculpas, falar que foi mal, foi péssimo, que foi pior do que dava pra ser, mas que já tinha sido e a gente podia se ver de novo qualquer dia desses pra tomar um café ou sei lá. Quanto tempo você leva pra digitar “dscp”? Talvez eu até esquecesse e superasse e topasse mais uma noitada naquele quarto bacana, mas um emoticon? Uma carinha amarela sem graça alguma? Ai não dá, é demais pro meu amor próprio. Respirei fundo e bloqueei.

A verdade é que eu não sei viver esse amor moderno, nem quero aprender.

Postado por Gabriela Freitas

Eu? Uma mistura de tudo que eu escrevo. Coração, alma e um pouco de corpo. Gabriela Freitas, sou paulistana direto da cidade da garoa, escritora, dona do blog Nova perspectiva e quando sobra tempo estudante de jornalismo. Insegura, dramática e um tanto áspera. Personalidade forte, meio agridoce, sabe?!
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