05 de ago de 2015

Naquele ônibus

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Créditos: Unsplash

Estava concentrado lendo as notícias no meu jornal, algo sobre a crise em um país que eu só conhecia de nome. Mas o tom de voz que ouvi naquele momento fez parar todo o meu exercício matinal, abaixar o papel e começar a observá-la. Ela estava ao telefone, e apesar do volume da sua voz estar baixo, como se estivesse preocupado com o incômodo aos demais passageiros daquele ônibus, o tom era de quem gritava por dentro e escancarava aos quatro ventos que algo estava errado.

Não podia ouvir o que o rapaz do outro lado dizia, mas posso jurar que ele era um babaca. Por todas as acusações que ela o fez, parecia se tratar de um daqueles homens que não dão o mínimo valor. Que pensam não estar de fato em um relacionamento. E que certamente a fazia sofrer muito. Nesse momento já deixei de ser imparcial e comecei a torcer pela moça. Não para que ganhasse a discussão, pois venhamos e convenhamos a única coisa que se ganha em conflitos como esse é mágoa, sofrimento e nada mais. Torci para que ela desligasse o telefone disposta a por um fim nessa situação. Para que não existissem outras vezes mais essa cena, com algum outro panaca como eu segurando um jornal analisando a vida alheia como eu fazia naquele momento.

Mas a briga não parou. Podia jurar que agora ela mexia no rosto para evitar que algumas lágrimas escorressem. Ela espirava fundo e eu podia sentir de longe seus suspiros. Podia apostar que ela estava em uma briga interna para se acalmar e não dizer tudo o que precisava dizer para o rapaz. E pra quê tudo isso? Não consigo acreditar que ela realmente ache que esse é o homem da vida dela. Que irão casar, ter dois filhos, cachorro, música do Luan Santana e comercial de margarina. Nesse cenário todo, ele é no máximo o cachorro. Ou o cara do lado de fora da casa lamentando ver a mulher que ele tanto quis com um outro cara que a mereceu e a valorizou de verdade.

Comecei a achar que talvez ela fosse um pouco masoquista. Que gostasse de sofrer, e a cada vez que ele tentava partir ela implorava pra que ficasse, porque sua vida seria vazia e incompleta sem o seu amor. “Amor”. Revirei os olhos só de pensar nessa possibilidade. Ela não parecia ser alguém que se contentava com migalhas. As aparência podem bem enganar, eu sei. Mas no meio de toda a minha observação intrometida eu poderia jurar que ela merecia ser feliz. Então por que não desligava o maldito telefone e seguia a sua vida?

Como isso tudo acabou? Eu nunca soube. Ela desceu do ônibus ainda com o telefone em mãos. Eu apenas levantei meu jornal, voltei para minha leitura e continuei a viagem. Nunca soube sequer seu nome. Nunca mais a vi. Talvez ela esteja bem. Talvez ainda esteja com o canalha. A única certeza que tenho é que ela foi eternizada nessa história…

Postado por Daiany Gomes

21 anos, paulista e formada em marketing. Aos 9 escreveu uma peça de teatro sem nenhuma pretensão. De lá pra cá, nunca mais parou. Atriz de alma, escritora por paixão e ruiva de farmácia. Dona mais que orgulhosa do blog Bilhete da Garrafa. De vez em sempre, brinca com as palavras por aí.