19 de jun de 2015

Não é um elogio…

Delícia, gostosa, quero te comer… Não, não é um elogio quando você utiliza os mesmo adjetivos aos quais você se refere a alimentos para se referir a mim…
Ai se eu te pego, eu faço com força, eu acabo com você… Não, não é um elogio quando você explicita atos violentos contra mim…
Boneca, gatinha, piranha, cadela… Não, não é um elogio quando você me compara a objetos ou a animais, por mais “fofos” que eles sejam…
Te fodo/te chupo todinha… Não, não é um elogio quando eu nem te conheço e você explicita palavrões e atos sexuais pra mim…

Não é um elogio quando eu sou gorda e você me força a ficar com você e ainda espera que eu te agradeça pela “caridade”. Não é um elogio quando você acha que eu preciso do seu elogio, do seu beijo, do seu toque. Nem quando você me encurrala contra a parede numa balada e eu fico virando o rosto, mas mesmo assim você insiste em tentar beijar minha boca. Não sou eu que estou fazendo “charme”, é você que não sabe levar um não.
Não, a palavra mais usada nesse post, que passa uma mensagem simples e clara: seja lá o que você estiver tentando conseguir comigo, desista.

Quando, em uma pesquisa, 99,6% das mulheres afirmam que já se sentiram assediadas, quando temos medo de sair ás ruas, não apenas por causa da violência, das balas perdidas e dos assaltos, mas por medo de sermos abordadas, coagidas, violentadas e estupradas – e depois termos de conviver com isso, como se fosse “normal”, como se fazerem isso com a gente fosse ok, como se estupro não fosse um crime.

Não, não é normal ter que cruzar os braços para esconder os seios, sejam grandes ou pequenos, quando passamos em frente a um local cheio de homens, com medo. Não é normal termos que apertar o passo e sentir o coração acelerar quando estamos a pé em uma rua vazia, seja a hora que for, e só tiver um homem passando por ali e só sentir o coração desacelerar quando encontramos mais mulheres. Não é normal termos que escolher as roupas mais compridas e largas para esconder nosso corpo quando saímos a rua, porque dizem que “quem usa roupa curta tá pedindo” e mesmo assim ainda estarmos correndo risco. Porque não é uma questão de quanto pano eu uso para me cobrir, mas uma questão de quanto a nossa cultura promove a mulher como um bem de “consumo”. Como se fôssemos um objeto e o único propósito dos nossos corpos fosse o de satisfazer as taras sexuais do homem, de todo e qualquer homem.

Não, eu não quero um “príncipe encantado”, não estou romantizando o sexo e nem negando me mulher pode sim sentir atração por um homem aleatório na rua, não quero que me deem rosas ou estendam o casaco sob a poça para eu passar… Mas não quero me sentir invadida em locais públicos, não quero sentir seu órgão genital roçando em minha roupa quando estiver no ônibus ou no metrô, não quero minha roupa suja com seu esperma sem meu consentimento. E não, não é porque eu me calei que eu consenti.
Eu me calei por medo. Medo de coisa pior, medo de, além de violada, eu ser também violentada. Medo de virar estatística, de virar notícia nos jornais, de não voltar nunca mais pra casa. Não quero ter medo de andar pela rua, não quero ter medo de beber na balada – desconfiando de cada homem que passa perto do meu copo -, não quero ter medo de ser tocada, estremecer a cada roçada ou esbarrão que derem em mim. Quero saber que só farei sexo quando, como e com quem eu quiser e que minhas vontades e limites serão respeitados por aquelx(s) que eu escolher como parceirx(s).

Publicado em Não Me Kahlo

Publicado em: Não Me Kahlo.

Não quero que meninas de 12, 13, 20, 40 anos tenham medo de curtir um dia no clube com as amigas, apenas por terem que usar roupas curtas. Não quero mais “psiu”, nem “fiufiu“, nem ter medo de olhar quando uma voz masculina me chama na rua.
Quero a liberdade de caminhar, de escolher a roupa que eu gosto, de ir e vir e saber que no meu corpo mando eu.

Postado por Aime Reis

Também conhecida como: Klaryan. Tem vinte e alguns anos e é blogueira há 15, dona do Klaryan.com, mora sozinha, já morou em Portugal e ama escrever! Formada em Letras português/japonês/espanhol, sonha em ser poliglota, mas sempre esquece as palavras que estão na ponta da língua. Ama compartilhar aquilo que sabe e aprender sobre o que não sabe, pra compartilhar também...