18 de out de 2015

Dilúvio

Começou com uma brisa leve, dessas que aparecem como quem não quer nada, de mansinho, amansando todo mundo. Que te faz querer aninhar em casa, no peito, na pontinha do travesseiro e descansar em paz. Que te faz sonhar com o amanhã, mas não querer tirar os pés do agora, nem a visão do olhar. Vento gostoso, que bate e te faz arrepiar dos pés à cabeça, mas apenas sorrir com a sensação. Pena eu não perceber a tempo que toda brisa que começa fraca, pode muito bem virar furacão  e de uma hora pra outra derrubar tudo que está em volta.

Logo começou a pingar. As pequenas gotas escorriam sobre meu rosto, e a sensação não poderia ser melhor. Lavou a alma, os dedos, os medos, encharcou de felicidade e encheu minha rua de amor.  Não só a minha, mas por onde quer que eu passasse. Não deu para evitar. Guardei o guarda chuva e entrei de cabeça. Me molhei por inteira. Deixei que minha mente e meu coração se apegasse a tudo de bom que esse sentimento me proporcionava. Pra quê pensar? Pra quê resistir? É muito mais prazeroso apenas se render.

Mas em um dia qualquer, o céu inteiro escureceu  e a tempestade se formou. Olhei para o lado e você não estava mais lá. Foi deixar sua brisa leve em outro lugar e me deixou no olho do furacão. Foi aí que o céu desabou e tudo o que consegui fazer foi sentar e deixar que tudo caísse em mim. Senti os raios ao meu redor, e os trovões na minha mente ecoavam sem parar que você não ia voltar. Foram dias em meio ao dilúvio. Dias esperando que o sol voltasse e aquecesse meu coração.

E eu não conseguia me esconder. Não havia abrigo para um coração tão machucado quanto o meu.

Por dias imaginei que essa tempestade não teria mais fim. Que seria mais fácil simplesmente deixar tudo escorrer pela calha e cair no chão frio. Mas como boa teimosa que sou, um restinho de sol ainda brilhava forte dentro de mim. Brigando contra tudo e todos e mantendo a chama ainda acesa. E como uma dessas forças inexplicáveis, que nem o destino é capaz de entender, aos poucos as gotas foram diminuindo até cessarem. Você não voltou, mas a paz sim. O sol saiu novamente e tudo brilhou ao meu redor.

Seu dilúvio acabou virando chuva de verão, que uma hora vai embora. Que deixa estragos por onde quer que passe, mas que podem ser recuperados quando a tormenta acaba. Deixei de esperar a chuva e passei a percorrer o arco-iris.


Texto escrito com base na sugestão de um leitor do blog, feito pela caixa de sugestões.

Postado por Daiany Gomes

21 anos, paulista e formada em marketing. Aos 9 escreveu uma peça de teatro sem nenhuma pretensão. De lá pra cá, nunca mais parou. Atriz de alma, escritora por paixão e ruiva de farmácia. Dona mais que orgulhosa do blog Bilhete da Garrafa. De vez em sempre, brinca com as palavras por aí.