17 de jul de 2015

Um texto sobre o amor moderno

Takmeomeo

Foto de Takmeomeo

Outro dia recebi um coração via Whatsapp de um carinha que eu estava saindo e fiquei pensando no quanto odeio a modernidade. Essa agilidade toda e a abreviação de sentimentos em carinhas amarelas que eu raramente sei o que significam. E a gente responde o que? Aquele emoticon com olhos esbugalhados em formato de coração imitando alguém apaixonado? É isso que ele quer dizer, não é? Que eu tõ apaixonada pra cacete? De quatro? Sonhando acordada com a boca aberta? Sei lá. Pode ser só um “ah meu deus que coisa fofa”. Vai que né, cada um interpreta como quer. Esse é o pior dos tempos modernos: não tem como ter certeza de nada.

E lá estava eu encarando o visor do celular sem fazer nem ideia do que responder. Depois de visualizar a mensagem e ser denunciado pelo sensor maldito do aplicativo não dá pra enrolar muito. Se você fizer jogo duro demais ele parte pra outra, é só selecionar um daqueles intermináveis contatos femininos na agenda do celular e mandar um sorrisinho amarelo insinuando qualquer coisa que ninguém nunca vai saber bem o que é. O romantismo perdeu seu toque misterioso do tempo dos meus avós, a ansiedade da espera foi passada pra trás e deu lugar pro imediatismo, agora tudo se resume facilmente em duas setas azuis anunciando que você foi ignorado com êxito. Na tentativa desesperada de ter um relacionamento um pouco mais normal decidi dizer apenas que eu também. Mas eu também o que? Sou um coração imenso que fica piscando na tela? Não, é claro que não! Eu também te amo. Foi isso que ele disse mascarado naquele emoji, não foi? Que me ama perdidamente? Alguém sabe? Tem algum manual que dê um significado exato? Ele não me respondeu por quatro horas seguidas, o que, de fato, me deixou desnorteada. Um pouco mais tarde me convidou para um cineminha no final de semana, topei, é claro, àquela altura eu não estava em posição de recusar nada, só de agradecer por ele não ter recorrido ao manicômio.

Levei alguns meses pra entender que, na verdade, ele não disse que me amava, aquele coração não significava nada além de um emoticon colocado no lugar do que não havia pra ser dito. Mas, como é que eu ia saber naquele momento o que aquilo significava? Afinal, até onde eu sei, coração significa amor, não é? Aquela válvula mágica que bombeia o sangue e te mantém vivo. Na minha cabeça foi isso que ele quis dizer: você me mantém com vida, te amo. E eu também amava. Mas era um amor escrito em letras garrafais com canetinhas coloridas em papel de carta enfeitado e não aquele exposto na tela de um smartphone. Era um daqueles amores que surgem sem que a gente queira que surjam e fazem a gente enxergar só o que quer, e eu queria achar que ele me amava, também, e que todas aquelas carinhas eram exatamente o que ele não sabia o que dizer.

A gente saiu mais umas três ou quatro vezes, cinema, barzinho e motel. Depois ele sumiu. Sem mais nem menos, sabe? Fiquei me perguntando o que é que eu tinha feito de errado, será que era a roupa? O cabelo? O perfume? Talvez a maquiagem, sei lá. Tinha que ser alguma coisa. Enchi a caixa postal dele com mensagens e continuei sendo retornada só com aquele silêncio ensurdecedor que é quase um soco no meio do estômago de quem tá caidinho por alguém. Depois de tantas tentativas eu desisti, enfiei o orgulho embaixo da cama e digitei um Whatsapp “pô, cara, você sumiu…” e ele respondeu em seguida com um bonequinho cabisbaixo. Ele, o amor da minha vida, o futuro pai dos meus filhos, o moço que tava me tirando o sono e rendendo alguns textos lotados de curtidas, me respondeu com um emoticon triste, como se aquela merda tivesse que fazer algum sentido na minha vida. Maldito! Nem pra pedir desculpas, falar que foi mal, foi péssimo, que foi pior do que dava pra ser, mas que já tinha sido e a gente podia se ver de novo qualquer dia desses pra tomar um café ou sei lá. Quanto tempo você leva pra digitar “dscp”? Talvez eu até esquecesse e superasse e topasse mais uma noitada naquele quarto bacana, mas um emoticon? Uma carinha amarela sem graça alguma? Ai não dá, é demais pro meu amor próprio. Respirei fundo e bloqueei.

A verdade é que eu não sei viver esse amor moderno, nem quero aprender.

Postado por Gabriela Freitas

Eu? Uma mistura de tudo que eu escrevo. Coração, alma e um pouco de corpo. Gabriela Freitas, sou paulistana direto da cidade da garoa, escritora, dona do blog Nova perspectiva e quando sobra tempo estudante de jornalismo. Insegura, dramática e um tanto áspera. Personalidade forte, meio agridoce, sabe?!


  • Ohara

    Em 17.07.2015

    Oi gabi,
    Atualmente os casamentos não são como antigamente, não são mais como ”’ate que a morte nos separe”’, né..
    Ta, hoje não se fala mais em coisas como: ”’andar de mãos dadas, escrever uma carta de amor toda enfeitada, rsrsrs lembra q as meninas mandavam e
    geralmente certos meninos: não me recordo se foi todo mundo: kkkkk: tirava sarro daquilo nê’ haha ja se perdeu muita coisa, querida.hj ninguem quer
    realmente ver o que e amor verdadeiro, hj é so ”’ficaar”’ e ainda tem essa historia do ””namoro virtual”” q inclusive ja entrei nessa mais hj em
    dia ando solteira com muito orgulho, pq eu ja perdi as esperanças daquele romantismo voltar.
    É isso.
    O que antigamente era isso, hj se resume em ficar, casamento que acaba em morte, coraçõeszinhos no whatsapp;
    Bjos.

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  • Nicolle Por Deus

    Em 17.07.2015

    Que texto, hein?! Pensar nessa pauta dá esse apertinho (que de “inho” não tem é nada) no coração. Por que o whatsapp, o facebook e o telegram foram inventar essas ferramentas denunciando que as mensagens foram visualizadas? Feliz é o skype que não te passa essas informações.

    Mas, bem, agora deixando a imaturidade de lado… às vezes (ok, “às vezes” é o escambau) é melhor saber do que permanecer na ilusão de “ah, talvez não tenha lido a mensagem, né?”. Não é fácil se deixar enxergar que você está sendo ignorada mesmo – e nem sempre por possíveis ficantes ou namorados, mas por amigas e amigos também -, mas é bem melhor se dar conta disso a continuar mandando mensagens e mais mensagens pra alguém que, aparentemente, não está muito afim de conversar contigo :~~

    Mandou bem na escrita, Gabi!

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  • Ohara

    Em 17.07.2015

    E eu ainda esqueci de falar da tal praga desse sensor de visualizações.rsrsrs
    Alguem me fala, pra que raios de vida que o parta existe essa praga desse maldito sensor?
    Bjos..

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  • Mônica

    Em 17.07.2015

    Wow, muito bom o texto, dá muito o que pensar… admito que já enviei “aquela carinha amarela” só para preencher o silêncio … mas também nunca sei interpretar esses emojis e acho que muitas vezes não são nada mais que encheção de linguiça D: bjs

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  • Juani

    Em 17.07.2015

    Aii que texto lindoooo … A tecnologia está acabando com o romantismo e sonhos. Só estamos cada vez mais iludidas e descartadas.

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  • Ana Carolina Mecenero

    Em 17.07.2015

    Amei o texto Gabi! Realmente o romantismo tá ficando muito de lado, essa coisa de tecnologia acaba deixando as relações um tanto quanto superficiais e estragam um pouco.

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